Por Luiz Augusto Erthal
![]() |
| Jango e Brizola em 1961 |
Duas semanas antes de morrer, o ex-governador Leonel Brizola ligou para Denize Goulart - sobrinha de sua mulher, Neuza, e filha do ex-presidente João Goulart - e pediu que ela fosse ao seu apartamento, em Copacabana. Denize foi acompanhada pelo sobrinho Christopher Goulart, filho do seu irmão, João Vicente, que estava em sua casa.
Ela chegou por volta das 11 horas e, embora ainda fosse de manhã, Brizola propôs abrir um vinho. A atitude pouco usual do velho líder trabalhista sugeria uma conversa longa e, talvez, para ele, um tanto difícil.
Começou com um preâmbulo intimista - as reminiscências do exílio, a vida no Uruguai e a própria família - como preparação para algo mais solene que viria em seguida.
“De repente ele olhou para mim e, para minha surpresa, me disse: ‘Eu tenho que te pedir perdão por tudo que vocês passaram. Tenho que pedir perdão a ti, ao teu irmão e aos meus próprios filhos’”, revelou Denize durante um debate organizado pelo Cineclube Macunaíma, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), na noite desta terça-feira, 2, após a exibição do filme “Jango”, de Sílvio Tendler.
“Mas perdão por quê? Não há nada que perdoar”, respondeu Denize, confessando que jamais pensou em ouvir algo assim de Brizola. Ela narrou, então, a declaração feita por ele com lágrimas nos olhos no final daquela manhã no antigo edifício da Avenida Atlântica, esquina com a Rua Xavier da Silveira:
“Eu fui muito contra o teu pai, muito contra o Jango. Rompi com ele em 64, nos afastamos, apesar de termos depois nos reconciliado. Mas eu fui responsável por muitas coisas e hoje acho que teu pai tinha razão. Não existia a mínima possibilidade de resistência naquele momento. Teu pai já sabia o que eu não sabia”.
“Ele falou isso olhando nos meus olhos. Eu chorava e ele também”, contou Denize.
Rompimento em 64

Brizola: Metralhadora em punho:
a campanha da legalidade
A revelação feita por ela remete a uma das questões mais polêmicas da história política recente do Brasil: a decisão do presidente João Goulart de se deixar depor sem luta em 1964.
Três anos antes, em 1961, após a renúncia do presidente Jânio Quadros e o veto militar declarado em seguida contra a posse do vice-presidente constitucional, João Goulart, Brizola, seu cunhado, havia levantado em armas o Rio Grande do Sul, estado que governava na época, para defender a Constituição e o direito de Jango a assumir a presidência da República. A Campanha da Legalidade, como ficou conhecido o último levante armado do povo brasileiro, liderado por Brizola, foi decisiva para impedir o golpe militar naquele momento.
Três anos depois, com a efetivação, em 1964, dos planos golpistas articulados contra os governos trabalhistas desde Getúlio Vargas (1951-1954) até João Goulart (1961-1964), Brizola, então deputado federal pelo PTB, tentou repetir a resistência armada, mas não teve o apoio do presidente. Ele chegou a assumir a direção do governo gaúcho e o comando das forças legalistas do então III Exército, àquela época o mais poderoso do país por sua missão de defender a fronteira Sul do Brasil.
Após tentar, sem sucesso, desarticular o movimento golpista que eclodiu no dia 31 de março em Minas Gerais, inicialmente no Rio de Janeiro, onde se encontrava, e depois em Brasília, para onde voou na manhã do dia 1o de abril, Jango foi ao encontro de Brizola em Porto Alegre. Eles se reuniram no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, onde Brizola apresentou ao presidente um plano de resistência.
Jango governaria de São Borja, na proteção dos pampas gaúchos, nomeando a ele, Brizola, Ministro da Justiça e ao general Ladário Teles, que comandava o III Exército, Ministro da Guerra. O III Exército, segundo o general Ladário, teria condições de recrutar e armar 100 mil civis.
Foi uma reunião tensa, segundo relatos do próprio Brizola e de outros presentes, onde também falaram outros chefes militares leais à legalidade democrática. Ao final da reunião e após ponderar as condições militares desfavoráveis à resistência, Jango agradeceu a lealdade oferecida, mas declarou que não pretendia cobrar do povo brasileiro o preço de sangue necessário para defender o seu cargo.























