quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Viva o Cinema Novo

Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça
Por Antonio Siqueira
















Entre os vários cinemas novos do mundo (italiano, francês, alemão etc.) que se desenvolveram nos anos 1960, fora dos padrões hollywoodianos de cinema, o Cinema Novo brasileiro foi um dos mais destacados, não só pelo seu sucesso internacional, mas, principalmente, pelo discurso critico em relação à situação político-social do Brasil.

O Cinema Novo encontraria, durante décadas, um ambiente favorável ao seu florescimento, devido à forte influência da cultura engajada e as inovações artísticas na área teatral, com o Teatro de Arena e o Grupo Oficina (ambos de São Paulo), que, ao longo dos anos 1960, a partir de espetáculos como Eles não usam Black-tie, Arena conta Zumbi, Arena conta Tiradentes, O rei da vela, Roda Viva, entre outros, desempenhariam um papel renovador e critico no plano da dramaturgia e da encenação, com diretores como Augusto Boal e Jose Celso Martinez Correa, fora dos padrões tradicionais do teatro da década anterior, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), propondo uma participação mais critica e ativa do publico, que acabaria influenciando o cinema de vanguarda da época.

 Até o golpe militar de 1964, o Cinema Novo concentrou-se basicamente na temática rural. Três obras de grande destaque abordavam a miséria dos camponeses nordestinos: Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos), Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha) e Os Fuzis (Ruy Guerra), ambas produzidas neste mesmo 1964. Cabe também citar o então inacabado Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, também de iniciado em 1964), completado em 1984, onde o diretor faz uma reflexão sobre a primeira tentativa de se fazer um filme baseado na morte de João Pedro Teixeira, líder de uma liga camponesa na Paraíba, utilizando membros da sua própria família, projeto que não foi concretizado devido à repressão desencadeada pelos militares a partir do golpe.

Dessa maneira, entre 1963 e 1964, o ambicioso discurso do inquieto Cinema Novo – “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”- alcançou, de forma definitiva, seu lugar no universo da melhor produção cultural do país, exercida de maneira critica e inteligente, vinculada à realidade de um Brasil ao mesmo tempo moderno e subdesenvolvido.

Mas, se até 1964 fora impossível tecer um discurso mais ou menos claro contra a realidade socioeconômica do país, com o golpe militar e conseqüente mudança do quadro político, houve uma tendência do Cinema Novo e se voltar sobre si próprio e repensar a sua atuação como agente social de uma classe média urbana, refletindo sobre o sentido da própria política de esquerda que até ali produzira.

Com isso, após o golpe, já a partir de 1965, a temática rural se retrai, focalizando-se mais a classe media e suas incertezas; tornam-se destaque filmes como O desafio (Paulo Cesar Saraceni, 1965), O bravo guerreiro (Gustavo Dahl, 1969) e Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade). Mas será Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) o exemplo mais significativo do Cinema Novo pós 64. O filme trata de uma revisão critica dos acontecimentos anteriores ao golpe: Eldorado é um país imaginário onde os interesses do povo são manipulados por políticos demagogos.

 Pela invenção e pela atualidade das questões que levantou, Terra em transe tornou-se o ponto alto do Cinema Novo brasileiro, pelas criticas em relação à esquerda e ao esquema populista da política brasileira, antes de 1964, onde operários e camponeses aparecem como massa de manobra, pois só podiam agir quando o espaço político lhes era oferecido de maneira paternalista. Isso tudo, marcado por uma narrativa fragmentada e inovadora, serviu de estímulo para o Tropicalismo revolucionando a cultura brasileira de massa, como um todo.






Imagem: Logo / divulgação

5 comentários:

Celso Lins disse...

Imprimindo. Talvez aplique esse puta texto nas aulas da tarde. Muito bom, Antonio.

Abração, meu brother.

Dayana disse...

Nunca fui fã do Cinema Novo, nem do brasileiro, nem dos demais. Porém, "Terra em Transe" é cultuado aqui na Alemanha. Um dia, passando por uma galeria na av podstan, vi um cartaz enorme com a chamada para o filme. Mas o texto está muito bom e deu vontade de assistir "Terra em Transe".

Anônimo disse...

Glauber era um gênio, um fenômeno...grande texto.

Eloy

rodrigo disse...

O Cinema Novo brasileiro revolucionou a historia do cinema latino americano. Mui bueno, mi amigo.

Rodrigo Cabañas

Magda disse...

Eu gosto de assistir TERRA EM TRANSE por que além do roteiro muito louco e da genialidade de Glauber Rocha, posso ver e matar as saudades de uma pessoa que me pegou no colo, atuando naquele filme: o Jardel Filho, amigo de meu pai e morto prepaturamente em 1983.

Postar um comentário

Diga-me algo