sábado, 1 de maio de 2010

O mundo costuma proclamar o seu fim já no ventre materno...

Quando a Vida morre antes de nascer
Por Antonio Siqueira



Pouco importa o que virá depois, porque nenhum homem, nenhum povo, tem em suas mãos as rédeas da História. A rota do homem na Eternidade é semelhante às estradas nos mapas antigos, nos quais as cidades eram marcadas sucessivamente em uma linha reta, com os dias de jornada entre uma e outra. Não podemos retificar o caminho da civilização, fazendo-o derivar para mais ao Norte ou mais ao Sul do tempo transcorrido. Só podemos nos situar no ponto em que nos encontramos, neste dia, nesta hora, neste minuto.

 Ninguém sabe por que, nem para que, nascemos. Provavelmente, a vida na Terra terminará antes que alguém responda a essas perguntas. É fácil constatar que todos os seres vivos morrem. É também a cada dia mais provável, diante da agressão ao planeta, ou de um cataclismo, que quase todas as formas de vida pereçam em algum e mesmo momento. Mas não nos é possível localizar o instante inaugural da vida sobre a Terra.


Há, no mundo, o retorno ao infanticídio, com a disseminação mundial de leis que favorecem o aborto. Médicos, filósofos e religiosos tentam definir o instante exato, antes do qual a gestação poderá ser interrompida sem que haja assassinato, porque de homicídio se trata. Ninguém pode situar esse momento. A concepção é um episódio, o mais importante para a construção do novo ser. Mas a vida antecede até mesmo a concepção. Ela é, para lembrar o pensamento antigo, sempre uma possibilidade, a de que o encontro entre o homem e a mulher (e de outros seres vivos) se torne novo ato criador. A vida é, se permitem o paradoxo, anterior à vida.

As principais causas do infanticídio, desde que temos disso registro histórico, são o egoísmo e o medo. Mata-se o inimigo antes que ele possa portar armas; fecha-se uma boca antes mesmo que ela se abra para comer o que faltará à nossa gula. Não queremos que outros nos venham a reduzir o espaço vital, sejam uma etnia, uma cultura ou um filho. Evita-se, como ocorre entre tantos casais, o nascimento de uma criança, que traga despesas e ocupe, com os cuidados e a responsabilidade que exige o tempo dedicado ao prazer. É mais fácil e mais cômodo, embora nem sempre mais barato, sustentar um cão ou um gato de luxo.

Muitos países europeus, ao mesmo tempo em que fecham suas fronteiras aos diferentes, subsidiam os nacionais para que tenham filhos. Isso não lhes constrange o financiamento de projetos de redução da natalidade nos países pobres. O argumento é o de que só podem ter filhos aqueles que dispõem de renda. Mas a vida está além do lucro e dos salários injustos; não pode ser tolhida por essas circunstâncias. Quanto ao genocídio planificado, é conhecida a recomendação do Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos (memorandum NSC 200, de 1974, firmado por Kissinger) para que se controle a natalidade em países como a Índia, o Paquistão e o Brasil. O texto é explícito, ao assegurar que a medida é necessária à segurança nacional dos norte-americanos.

Em passagem do Grande sertão: Veredas, Guimarães Rosa faz seu personagem maior, Riobaldo, ajudar uma sertaneja no parto. O guerreiro descreve a tapera da mulher com sua pobreza, e diz que tudo o que ali havia não dava para encher uma caixa de fósforos. "Alto eu disse, no meu despedir: - Minha Senhora Dona: um menino nasceu - o mundo tornou a começar!... - e saí para as luas". O mundo recomeçava naquela noite no sertão, como recomeçara em certa gruta de Belém. E, para que aquele menino de Nazaré escapasse da matança de Herodes, foi preciso que o asilassem no Egito.

A História está cheia de exemplos de homens que nasceram na mais extrema pobreza e contribuíram, com o caráter, a inteligência e a sensibilidade, para que o mundo fosse melhor. Entre eles, Chaplin, que se contrapôs, com os andrajos e o passo desafiante de Carlitos, à insensatez do século 20. A vida é valor absoluto e único. Abortá-la é opor-se às razões imperscrutáveis que a fizeram surgir, razões a que a maioria dos homens dá, em todas as línguas, o nome de Deus.
 





Ilustração: Arquivo da Bia

4 comentários:

mariza disse...

texto maravilhoso, humano e solidário à vida. mas eu gostaria de fazer um pequeno adendo, se me permite, querido. infanticídio e aborto não configuram o mesmo tipo penal. infanticídio é um crime próprio que só pode ser praticado pela mãe (em estado puerperal) durante o parto ou logo após (a pena é sempre menor que a do homicídio).
mas leis à parte, importa mais o que concorre para a prática de crimes contra seres indefesos. embora o feto não seja conceituado como ser completo, a partir de sua concepção adquire o direito à vida. quem somos nós ou qualquer um para contrariar esse bem maior? em contrapartida, existe o direito real de disposição do próprio corpo e do que há dentro.
é um tema delicado, que encontra resistência na sociedade, especialmente entre aqueles que sobrepõem ao direito, a religião.
de qualquer forma, embora seja religiosa, e para mim a prática do aborto não seja sequer cogitada, não posso deixar de respeitar aquela que decida abortar.
o que me deixa apavorada é o aborto como forma contraceptiva. isso é errado, isso é cruel.

beijos e parabéns pelo artigo.

Antonio Siqueira disse...

Obrigado pelo grande adendo. O que me levou a escrever tal texto foi justamente a maneira CRUEL dos novos métodos de contracepção. beijo grande.

Anônimo disse...

Esse seu texto me fez pensar tanto durante toda essa tarde nesse assunto, Antonio. Que as pessoas reflitam, é tudo que tenho a comentar.

Drica

Anônimo disse...

Deu para perceber a associação feita aqui com o infanticídio. Bem sabemos que o infanticídio nçai foi empregado de forma correta, mas sim de uma forma mais comparativa. Palavras fortes. Eu ainda não havia lido nada semelhante sobre o assunto. Muito bom e parabéns.

Cristiane

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