Em 1981, Roberto Carlos pediu uma canção a Gilberto Gil, para gravar. “Do que eu vou falar?” – perguntou-se Gil. “Ele é tão religioso… E se eu quiser falar de Deus? E se eu quiser falar de falar com Deus?”
Gilberto Gil
Com esses pensamentos e inquirições feitas durante uma sesta, Gil deu início a uma exaustiva enumeração: ‘Se eu quiser falar com Deus, tenho que isso, que aquilo, que aquilo outro’. E saiu de casa. À noite, voltou e organizou as frases em três estrofes.
Roberto não gravou, porque sua concepção de Deus é deveras tacanha (...) diferente, opus dei demais. Elis Regina e o próprio Gil gravaram. Hoje em dia, mais de três décadas depois, Gil é pouco religioso, mas de vez em quando reza um “Pai Nosso”, por via das dúvidas.
"Se eu quiser falar com Deus"
Gilberto Gil
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar
Elis Regina - Se eu quiser falar com Deus - ao vivo em P.O
Sofisticado mas ao mesmo tempo fácil, o novo disco de Bebel Gilberto, "Tudo", chega depois de cinco anos sem novidades na carreira da cantora. O repertório traz 12 belas faixas, cantadas ora em português, ora em inglês. E ainda há uma canção em francês, "Tout Est Bleu".
O disco abre com a bela "Somewhere Else", e nela Bebel passa do português ao inglês de uma forma tão suave que quase não dá para perceber. É como se sua voz fosse mais um elemento, junto aos outros instrumentos, a criar um clima intimista.
Já "Nada Não", que vem logo em seguida, é mais lenta, do tipo que faz pensar numa tarde de domingo preguiçosa. "Tom de Voz" é um sambinha com participação de Seu Jorge, criando um dueto interessante, focado no contraste das duas vozes.
Além das canções autorais e das coescritas com o guitarrista Cesar Mendez, o disco traz uma música de Luiz Bonfá e outra de Pedro Baby. E ainda algumas versões: "Vivo Sonhando", de Tom Jobim, e "Harvest Moon", de Neil Young. Duas ótimas versões, vale dizer.
Variado, "Tudo" traz pouco mais de 45 minutos de músicas bonitas e suaves, mas com diversas nuances. Há muita percussão (berimbau, chocalho) e letras que misturam alegrias e dissabores. A produção é de Mario Caldato Jr. e de Liminha. Além de Cesar Mendez, o disco ainda tem Masa Shimizu (guitarra), Didi Gutman (teclado), Kassim (baixo, guitarra), Miguel Atwood-Ferguson (arranjos) e Mauro Refosco (bateria, percussão).
Filha de João Gilberto e da cantora Miúcha, Bebel nunca se desprenderá de sua genealogia - e nem deve, afinal são suas raízes. Talvez a Bossa Nova seja indissociável de Bebel Gilberto. O que não a impede de misturar ao estilo diversas outras coisas. O fato é que "Tudo" encanta logo de cara. Quanto mais você ouve, mais detalhes interessantes descobre.
Em seu quinto disco, Bebel não precisa se preocupar com o que vão dizer, não é mesmo? É Bossa Nova para gringo? É sim. Afinal não são só os brasileiros que consomem música de fora.
O cineasta, artista plástico, instrumentista, cantor e compositor paulista João Lutfi, que adotou o pseudônimo de Sérgio Ricardo, afirma que a letra de “Calabouço” foi inspirada em Edson Luis, estudante assassinado por militares no Restaurante Calabouço, em 1968, no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar que vigorava no Brasil. A música foi gravada no LP Sérgio Ricardo, em 1973, pela Continental.
Sergio Ricardo
CALABOUÇO Sérgio Ricardo
Olho aberto ouvido atento
E a cabeça no lugar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Do canto da boca escorre
Metade do meu cantar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Eis o lixo do meu canto
Que é permitido escutar
Cala a boca moço. Fala!
Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia
Cerradas portas do mundo
Cala a boca moço
E decepada a canção
Cala a boca moço
Metade com sete chaves
Cala a boca moço
Nas grades do meu porão
Cala a boca moço
A outra se gangrenando
Cala a boca moço
Na chaga do meu refrão
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço
Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia
Mulata mula mulambo
Milícia morte e mourão
Cala a boca moço, cala a boca moço
Onde amarro a meia espera
Cercada de assombração
Cala a boca moço, cala a boca moço
Seu meio corpo apoiado
Na muleta da canção
Cala a boca moço. Fala!
Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia
Meia dor, meia alegria
Cala a boca moço
Nem rosa nem flor, botão
Cala a boca moço
Meio pavor, meia euforia
Cala a boca moço
Meia cama, meio caixão
Cala a boca moço
Da cana caiana eu canto
Cala a boca moço
Só o bagaço da canção
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço
Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia
As paredes de um inseto
Me vestem como a um cabide
Cala a boca moço, cala a boca moço
E na lama de seu corpo
Vou por onde ele decide
Cala a boca moço, cala a boca moço
Metade se esverdeando
No limbo do meu revide
Cala o boca moço. Fala!
Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia
Quem canta traz um motivo
Cala a boca moço
Que se explica no cantar
Cala a boca moço
Meu canto é filho de Aquiles
Cala a boca moço
Também tem seu calcanhar
Cala a boca moço
Por isso o verso é a bílis
Cala a boca moço
Do que eu queria explicar
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço
Olha o vazio nas almas
Olha um brasileiro de alma vazia.
Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá “ver” cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.
Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.
As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mais limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez “aqui estou” quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua.
Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de
alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax
espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana.
Ao menos em sinal de respeito pela vida, devíamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.
E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca,
inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes
para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “fator deus”, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um Deus, mas o “fator Deus” o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, e não a outra…) a bênção divina. E foi no “fator Deus” em que o Deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um Deus andou a semear ventos e que outro Deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres Deuses sem culpa, foi o “fator Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual fora religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.
Ao leitor crente (de qualquer crença…) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras
provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “fator Deus”. Nãofaltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.
*José de Sousa Saramago foi um escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998. ★16 de novembro de 1922 ✝ 18 de junho de 2010
Nós somos uma triste crônica construída por amigos e inimigos
O caminho lógico
Olhar o mundo e não encontrar nada. Como gritar para ao espaço e não ser ouvido, tampouco correspondido. O absoluto vácuo, solidão não existe, existe sim, o nada. A oração do rei, do rei posto, morto, desencarnado. Do rei que era justo e rude, que era sábio e errante. O nada é o céu, mas um céu vazio... Azul. Porém vazio.
Uma vida inteira é pouco para errar, para caminhar vazio, uma vida inteira que é um universo sem chão e, agora, sem teto. Porém, é uma vida, Acredite. Entretanto é necessário agradecer seja lá ao que for qualquer desgraça forjada pelo que aprendemos a chamar de existência. Somos concebidos, nascemos, vivemos sem saber ao certo para quê e para onde, mas nascemos e vivemos. Seja de uma puta louca ou de uma santa, mas estamos condenados a existir.
Dizia Jean Paul - Sartre do alto de sua genialidade existencialista: "_Existimos em Função do Futuro." Ora, antes de vivermos, a vida é coisa nenhuma. Atemporalidade? Pode ser. A imortalidade pela literatura, a filosofia como meio de ascender; Mas ascender ao quê? O cerne da escrita, da criação, da demanda desesperada de ideias. Mas vale a pena viver mergulhado em angústias e sofrimentos que só cessam (ou não) no coma eterno da morte?
Todos os escritos possuem um sentido, por que nunca se escreve para si mesmo e quem escreve detém para si o mundo. Mas quem escreve morre a cada dia e muito. A ausência. O fim! Aquele que escreve convive com isso, com perdas. Para ser um bom escritor é preciso sofrer e morrer muito a cada dia. Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana , os deuses deixam de poder seja o que for contra este ser livre. Porém esta liberdade chama-se morte e a morte assusta. Posso afirmar, entretanto, que esta só assusta a quem não flertou ou sentiu-a bem diante à face, diante da própria alma. E posso afirmar categoricamente que não é um fenômeno tão assustador, quando atravessamos os estágios mais dolorosos e deixamos de sentir a Dor. O alívio é o anuncio da passagem e é a sensação mais nirvânica que se pode ter.
A violência, seja qual for a maneira como se manifesta, é sempre uma derrota. A violência da vida em si contra mim, contra você e contra todos é a vitória de quem? E a derrota? A derrota já está gravada no DNA da maioria dos passantes e viventes neste orbe desajustado e vil. A traição, o desprezo, a espada, a bala que atravessa o peito, o escuro, o escarro...é tudo a mesma coisa! O alimento da maioria das almas que ocupam corpos nesta terra miserável é a maldade. Falo por mim. Alimento-me da maldade ou do amor que me dão na mesma intensidade; faço amor e faço mal com o mesmo prazer e êxtase. A natureza só é perfeita para os hipócritas que se mascaram e a reação é irmã siamesa da ação, seja ela qual for. O melhor é seguir a estrada e enfrentar o demônio mundo desprezando-o.
A misantropia não é insanidade, muito pelo contrário, é uma demonstração de bom senso quando se lida com bestas-feras à solta, agindo livremente, matando almas e corpos sob o julgo infame do livre arbítrio. Este plano terrestre foi moldado para espiação e purgatório geral. Se o espírito insiste em estar aqui, alguma coisa não vai bem. Tu és metade vítima, metade cúmplice, como todos os outros e tuas Mãos estarão Sujas. Lava-las é um simbolismo ultrapassado e ignóbil. Ridiculamente romano.
A Bíblia foi o livro mais sabotado na história da humanidade e suas crenças. O que deveria ser o referencial mais legítimo da espiritualidade, acabou sendo um elemento de indulgência vilipendiado e massacrado em sua essência pela igreja que insiste em representar Jesus de Nazaré. Porém, muitas passagens ali descritas demonstram que, de fato, o tão esperado Messias nasceu e cresceu entre os notáveis monges Essênios de Qunrã e tentou, em vão, ensinar física quântica há dois mil anos à uma humanidade que só foi considera-la quase dois mil anos depois; Lucas 21:17-19 lê-se e vivencia-se: "Todos odiarão vocês por causa do meu nome. Contudo, nenhum fio de cabelo da cabeça de vocês se perderá. É perseverando que vocês obterão a vida. " Algo não deu certo. E creia-me; é tarde demais!
É chegada a hora de ser abandonado e abandonar. É chegada a hora de sorver outras lições. É chegada a hora do ceticismo, da decadência de princípios...é chegada a hora de vestir-se de vergonha, principalmente na cara, na face oculta, nos confins do inferno íntimo e pisar no chão repleto de cadáveres vivos.
Um povo sem memória não evolui, tampouco consegue defender-se e/ou defender a história de sua pátria, o que é profundamente lamentável.
Por Antonio Siqueira
Oswaldo Aranha
Sem entrar no mérito da questão no que se refere à convocação do embaixador em Telavive ao país, absolutamente desproporcional e agressivamente despropositada a reação da Chancelaria israelense. Afirmar que o Brasil é um anão no campo da diplomacia, cuja presença não é levada a sério, é simplesmente um absurdo.
Não pode ser considerado sem importância o país cujo representante, Oswaldo Aranha tornou-se o primeiro presidente da Assembléia-Geral da ONU e, nesta qualidade em 1947, tornou possível a criação do próprio Estado de Israel (que sem medo de qualquer represália, afirmo aqui que jamais deveria ser criado e assentado ali naquela região). Foi a votação do projeto que dividiu a Palestina em dois Estados um deles o de Israel.
Não pode ser considerado anão na diplomacia uma das apenas 11 nações que mantêm relações com todas as outras. Tão pouco pode ser minimizada a importância de um país que foi o único da América Latina a declarar guerra a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, ao Japão de Hiroito, apesar das escorregadas de Getúlio Vargas. Portanto ao eixo nazi-facista.
Não tivesse o Brasil importância no cenário mundial, não teria sofrido o covarde ato em que submarinos nazistas da Alemanha afundaram vinte e dois navios mercantes brasileiros indefesos, isto segundo conta uma história, mal contada ou não, fossem alemães por motivos cáusticos e estratégicos ou os Estados Unidos da América de Roosevelt a querer nos arrastar à guerra...o sofrimento e o tormento foram os mesmos num mundo tão infame. Em vários casos com requinte de crueldade: depois do torpedeamento, os submarinos vinha à tona e com metralhadoras no convés alvejavam os tripulantes que tentavam sobreviver.
A Chancelaria de Israel esqueceu que a Força Expedicionária Brasileira lutou bravamente nos campos da Itália, sob o comando do general Paton, destacando-se em vários episódios históricos como a tomada de Montecastelo, quando, na escalada, encontraram-se sob o fogo inimigo. E encontraram judeus famintos, maltrapilhos, torturados, vilipendiados e prisioneiros dos alemães...e os libertaram. Muitos oficiais brasileiros ficaram na Europa para o rescaldo de guerra, alguns por até um ano. Um tio meu participou de jornadas de libertação e com estes companheiros de várias nações, encontrou, dentre outras carnificinas, dois campos de concentração na Polônia e em Kiev, na Ucrânia. Não gosto, pessoalmente, de judeus ortodoxos e lido, mas com muito tato, com os da linha mais Easy, sobretudo no que concerne a trabalho. Acho que deveriam retratar-se. é muito fácil tornar-se antissemita de uma hora para outra, enojar-se de um judeu é simples, é uma linha tênue. Não são e nunca foram criatura de fácil relacionamento e a distância é excelente solução.
Israel, ao invés de escolher o Brasil como alvo político, deveria, isso sim, responder ao conteúdo das restrições que vêm sendo feitas pelo exagero das reações a que tem direito pelos ataques que sofre. Não quis discutir essa desproporcionalidade, concretamente. Achou normal e em resposta citou os 7 a 1 como exemplo de fato desproporcional. Neste ponto praticou um erro diplomático muito grande tanto sob o aspecto político quanto sob o prisma cultural. Além de esquecerem-se de que os nobres alemães que nos submeteram à esta humilhação desportiva no campo de jogo são netos ou bisnetos dos mesmos alemães que há pouco mais de 70 anos, mataram 6 milhões de judeus de maneira sistemática e industrial.
O poeta Dante Milano (1899-1991), nascido em Petrópolis (RJ), é um dos poetas representativos da terceira geração do Modernismo. Em “Poema do Falso Amor”, Milano mostra a diferença entre o falso e o verdadeiro amor, para questionar: Qual dos dois é o verdadeiro?
"Poema do falso amor" Dante Milano
O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro
É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro falso. A diferença
Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?
Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isto faz crer que todo amor é falso
Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso!
Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor!
Em 1973, Neal Schon e Gregg Rolie, que eram músicos que acompanhavam o guitarrista mexicano CARLOS SANTANA, formaram a GOLDEN GATE RHYTHM SECTION com intuito de servir de banda de apoio para artistas que se apresentavam na área de São Francisco-CA.
Rapidamente, a banda abandonou a ideia de dar suporte para outros artistas e passou a desenvolver um trabalho voltado para o JAZZ-FUSION.
A assinatura de um contrato de gravação com a COLUMBIA RECORDS e um novo nome seriam os próximos passos naturais para o grupo.
A partir de 1975 começaram a se apresentar com o nome que os tornaria conhecidos mundialmente: JOURNEY.
As vendas do primeiro álbum, JOURNEY (1975), e de seu sucessor, LOOK INTO THE FUTURE (1976), foram decepcionantes.
A gravadora então impôs que a banda fizesse um trabalho mais comercial.
NEXT (1977) é lançado com faixas mais curtas e vocais, numa clara tentativa de tornar a banda mais comercial. Mais uma vez, as vendas foram desapontadoras.
Preocupada em não desperdiçar o talento de músicos tão bons, a COLUMBIA novamente interviu e dessa vez propôs uma mudança completa de estilo. Um cantor, com fortes características como frontman, deveria ser incorporado a banda.
Em 1977, JOURNEY apresentou seu novo cantor: Steve Perry.
A límpida e absurdamente potente voz de tenor de PERRY acrescentou a banda um claro viés POP. As vendas de seus próximos álbuns, INFINITY (1978), EVOLUTION (1979) e DEPARTURE (1980) tiveram um aumento significativo. O grupo começa, nessa época, a frequentar as paradas de sucesso.
Em 1979, Gregg Rollie pela segunda vez deixa uma banda de sucesso. Jonathan Cain é seu substituto.
Após o lançamento do álbum ao vivo, CAPTURED (1980), a banda lançaria seu maior sucesso ESCAPE (1981). Puxado pelas canções Don´t Stop Belevin´e Open Arms, as vendas dispararam e o grupo passa a ter status de superstars, apresentando-se através dos EUA em gigantescas arenas.
FRONTIERS (1983) segue o mesmo caminho do lançamento anterior e vai para o topo das paradas.
Claramente, a entrada de Steve Perry para a banda, redefinindo seu som, foi o elemento catalisador para todo esse sucesso.
Naquele momento Perry já era conhecido como THE VOICE
Em 1986, já sem o baixista Ross Valory e super-baterista Steve Smith, lançam RAISED ON RADIO, também com boas vendas.
Após a tour de RAISED ON RADIO, apoiada por músicos convidados, Perry, Schon e Cain resolvem por a banda em hibernação.
Os três integrantes lançam projetos, com alguma repercussão, mas sem atingir os patamares que o grupo conseguiu anteriormente.
TRIAL BY FIRE (1995) é lançado com a volta da formação mais famosa do grupo.
O single When You Loves A Woman é indicado ao GRAMMY.
Pouco antes do incio da tour de TRIAL BY FIRE, Perry apresenta problemas de saúde.
Um acidente, durante uma escalada no Havaí, o coloca numa mesa de operação para colocar uma prótese em seu quadril. A recuperação seria longa.
Schon, Cain, Valory resolvem inciar a turnê sem Perry.
Steve Augeri, um cantor com uma voz extremamente parecida com a de Perry, mas sem seu carisma, é colocado em seu lugar.
Steve Smith também deixa a banda para se dedicar a sua banda de jazz, VITAL INFORMATION. Em seu lugar, assume as baquetas, Dean Castronovo, que já havia tocado anteriormente com Schon and Cain.
Parecia que a banda caminhava, a passos largos, para voltar ao ostracismo, se repetindo indefinidamente e vivendo de seu passado, quando, em 2006, Steve Augeri foi diagnosticado com INFECÇÃO CRÔNICA NA GARGANTA. Mais um caso médico com uma perspectiva de longa recuperação.
JOURNEY faz alguns shows que já estavam agendados com Jeff Scott Soto provisoriamente nos vocais.
Mas um novo vocalista precisava ser encontrado.
Neal Schon não queria fazer audições para achar um novo frontman. Então, recorreu ao YOUTUBE em sua busca.
Alguns candidatos, sem sucesso, chegaram a ser testados. Nenhum deles satisfez Schon e Cain.
Em dezembro de 2007, Schon encerrou suas buscas. Nas Filipinas, encontrou Arnel Pineda.
Pineda era um órfão filipino que, após a morte da mãe, morou nas ruas de Manila e lutava por sua sobrevivência cantando, muitas vezes, em troca de comida.
Pineda viajou para os EUA, fez audições com a banda e foi anunciado como novo vocalista do JOURNEY.
A entrada de Pineda injetou um novo animo na banda que voltou a se apresentar em grandes arenas e a ter uma venda de álbuns melhor, apesar de não atingir os números de ERA PERRY
A história de Pineda é um conto de fadas moderno. Uma Cinderela do rock´n´roll.
Isso faz a gente pensar que nesse mundo tudo é possível. A acreditar em contos de fadas e em sonhos se realizando.
Existem por ai muitas histórias de gatos e gatas borralheiras, como Pineda, acontecendo a todo instante.
By the way, em junho passado, depois de 20 anos sem se apresentar, Steve Perry finalmente voltou aos palcos numa, sob todos aspectos emocionante, participação em um show da banda Eels.
Basta não parar de acreditar ou Don´t Stop Belevin´
Lyonel Feininger, nascido em 17 de julho de 1871, isto é, há exatos 143 anos, era o mestre da "Oficina de Gravura Bauhaus" e um pioneiro dos quadrinhos. Aqui, Wee Willie Winkie joga uma pedra em uma poça de transformar a sua "cara azeda para o futuro" em um sorriso. Observe os gatos pretos altos nas margens.
[Lyonel Feininger. "O Mundo de Wee Willie Winkie do The Chicago Sunday Tribune". 02 de setembro de 1906.]
Os torcedores chilenos presos (ou detidos) ontem no Maracanã não podem ser deportados, ou seja, mandados de volta para o Chile. Fala-se que são 88. Não importa quantos sejam. Se o governo brasileiro decidir deportá-los, cometerá ato desumano e prepotente, muito mais grave e lancinante do que ilegal.
O Brasil sedia uma Copa do Mundo de Futebol, certame que pertence à FIFA. Os estádios foram construídos com o dinheiro do povo para a FIFA. O lucro é da FIFA. Quem dá as ordens é a FIFA. As cidades-capitais do Brasil são apenas sedes. Ainda assim, somos anfitriões. Sem poder de comando, sem autoridade e mesmo inferiorizados e subservientes, o Brasil não deixa de ser o anfitrião.
Esses chilenos só poderiam ser deportados se a entrada deles no Brasil tivesse sido irregular, conforme dispõe o Artigo 57 do Estatuto do Estrangeiro (Lei 6815, de 19.8.1980). E irregular não foi. Eles não são criminosos, não são bandidos, não são nocivos e nem oferecem perigo à segurança nacional e do povo brasileiros. São torcedores de seu país que, no afã de assistirem ao jogo de ontem, no Maracanã, erraram. E erraram feio. Mas erro compreensível.
Não corromperam. Não subornaram. Não receberam propina. Não praticaram malversação dos dinheiros públicos. Não furtaram. Não roubaram. Não assaltaram… quiseram apenas assistir ao jogo. E perderam a cabeça. Dizem que “desacataram e depredaram o patrimônio”!!! E se tanto fizeram, são delitos que não levam o infrator à prisão, nem justifica a deportação, ainda mais “de plano”. A Constituição Brasileira garante-lhes o amplo direito de defesa e o devido processo legal. Não podem sofrer a pena de deportação.
Têm esses torcedores chilenos que vieram ao Brasil o amplo e irrestrito direito de aqui permanecerem entre nós, assistirem aos jogos e depois retornarem ao seu país de origem. Sabe-se que em Direito Penal não há analogia. A lei define se uma conduta é ou não é criminosa, ou contravencional.
Mas indaga-se: se o furto quando é famélico não constitui crime, por que, então, criminalizar e deportar nossos irmãos que viajaram ao Brasil para assistirem e torcerem pela seleção de futebol do seu país? Eles aqui estão exclusivamente por isso. Nada mais que isso. E tomados de forte emoção e longe de casa, de suas famílias, de seus amigos…É inacreditável que para esses chilenos o Estatuto do Torcedor, que a Lei Geral da Copa revogou 29 de seus artigos, seja aplicado, sem piedade, sem compaixão, compreensão e razão.
O Brasil não pode deportar esses torcedores chilenos. Que sejam soltos, se presos ainda estiverem. Que circulem entre nós. Que assistam aos jogos. Que sejam carinhosamente tratados por nós, brasileiros. Presidente Dilma, não permita que o Brasil cometa a barbaridade de mandá-los de volta ao Chile.
*Celso Lins é brasileiro, carioca, professor, historiador, simbologista e historiography de la Universidade Austral de Chile
O pintor, escultor, cantor e compositor carioca Guilherme de Brito Bolhorst (1922-2006), na letra de “Folhas Secas”, em parceria com Nelson Cavaquinho, compara as folhas caídas da árvore mangueira com a sua tristeza quando não puder mais cantar. Este samba foi gravado por Beth Carvalho no seu LP Canto Por um Novo Dia, lançado em 1973 pela Tapecar.
"Folhas Secas" Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
Nelson e Guilherme
Quando eu piso em folhas secas Caídas de uma mangueira Penso na minha escola E nos poetas da minha Estação Primeira Não sei quantas vezes Subi o morro cantando Sempre o sol me queimando E assim vou me acabando Quando o tempo avisar Que eu não posso mais cantar Sei que vou sentir saudade Ao lado do meu violão Da minha mocidade.
Na interpretação do próprio: Nelso Cavaquinho - "Folhas Secas" - TV Educativa, hoje Rede Brasil
O compositor mineiro Geraldo Theodoro Pereira (1938-1954), na letra de “Sem Compromisso”, em parceria com Nelson Trigueiro, retrata cenas de ciúme no salão. Esse samba faz parte do LP Sinal Fechado gravado por Chico Buarque, em 1974, pela Philips.
Sem Compromisso
Nelson Trigueiro e Geraldo Pereira
Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso
Não sou nenhum Pai-João
Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Prá não haver bate-boca dentro do salão
Quando toca um samba
E eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: Não, eu agora tenho par
E sai dançando com ele, alegre e feliz
Quando pára o samba
Bate palma e pede bis
Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso
Não sou nenhum Pai-João
Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Prá não haver bate-boca dentro do salão
Quando toca um samba
E eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: Não, eu agora tenho par
E sai dançando com ele, alegre e feliz
Quando pára o samba
Bate palma e pede bis
Aqui na Voz de Chico Buarque em faixa do disco "Sinal Fechado", de Chico Buarque, lançado pela gravadora Philips em 1974, com arranjo e coordenação musical de Perinho Albuquerque.
Excelente o artigo de Zuenir Ventura, O Globo de sábado, destacando, para muitos, uma face do cantor Roberto Carlos, um artista a favor da censura, não só à biografia de Paulo Cesar de Araújo sobre ele, mas também chegando ao ponto de cumprimentar o ex-presidente Sarney, quando, no seu governo, proibiu a exibição do filme “Je vous salue Marie”, de Jean Luc Godard, autor de extensa obra cinematográfica, na qual “O Acossado” tem lugar de destaque. O texto do estúpido telegrama enviado, acentuou Zuenir, encontra-se no site do jornalista Mário Magalhães.
Aliás, diga-se de passagem, foi igualmente absurda a decisão de José Sarney, um membro da Academia Brasileira de Letras. Voltando a Roberto Carlos, o aspecto a meu ver mais impressionante, é que provavelmente tornou-se o único artista a defender a censura. Uma contradição profunda que o expõe a uma situação muito ruim, além de vergonhosa. Esqueceu que a inspiração da arte está na liberdade de criação e que, até hoje, no mundo, não há exemplo de uma obra interditada no passado que depois não tenha sido exibida livremente. Alias, o srº Roberto Carlos foi a maior arma da ditadura que nos afastou do universo por duas décadas e meia, todos sabem. Não só este senhor, como uma outra horda de lacaios do marasmo que não vale a perda de tempo em cita-los como Renato Aragão, por exemplo, outro "cancro institucionalizado" no âmago das culturas de massa, agora descartado...tarde, mas descartado.
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Sem exceções. Podem procurar na literatura, no teatro, no cinema, na pintura até mesmo na escultura. A igreja da Pampulha, à beira do lago de Belo Horizonte, de Oscar Niemeyer figura nessa relação de sombras produzidas pelo fanatismo, pelo falso puritanismo, pela burrice enfim. O próprio Vaticano, no passado, chegou a colocar no index obras de arte importantíssimas. Um esforço em vão de tentar eternizar conceitos que o tempo ultrapassa e de julgar, por si, a liberdade e a visão cultural dos outros.
Como toda censura é retrógrada, o comportamento de Roberto Carlos pode ser também assim classificado. Obscurantista. Ridículo, em total contradição com a arte e, portanto ,como artista que é, consigo mesmo. Colocado à frente de um espelho a imagem que surge e reflete não o favorece. Pelo contrário. O prejudica diante de milhões de pessoas que admiram suas interpretações e composições musicais. Ele não suportaria ver censurada uma de suas obras, claro, até por que não haveria o que censurar, dada a pobreza de argumentos, valores e prerrogativas, RC sempre foi lamentável ideologicamente e até piegas, tanto do ponto de vista estético quanto do ponto de vista cultural. Portanto Mesmo assim sendo, ele não pode apoiar a censura às obras dos outros. A começar pela biografia de Paulo Cesar de Araújo feita sobre sua vida. Pois se todas as biografias dependessem de aprovação prévia dos biografados, os prejuízos recairiam principalmente na história geral. Porque todos os focalizados transformariam em heróis de si mesmos. Todos eles titulares de condutas exemplares e próximas da perfeição. E, convenhamos, a biografia de RC é um lixo literário bem aos moldes da sociedade brasileira recriada a parir do Golpe de 1964 e alimentada com fervor pelas Organizações Globo do grande devorador de mentes, Roberto Marinho, parceiro e sócio de Roberto enquanto viveram contemporaneamente.
E todos nós sabemos que não é nada disso. No caminho de todos os seres humanos há sempre um álbum de família, peça de Nelson Rodrigues de difícil ultrapassagem e superação. Por mais importantes que sejam ou tenham sido em suas vidas. Por mais que tenham acrescentado à própria humanidade. Roberto Carlos precisa acordar - ou sumir: se a censura prevalecesse, a arte já teria chegado ao fim. A arte é, sobretudo, liberdade de criação, de interpretação, de exposição. O que na minha modesta e pessoal opinião, estáaa arte pura, cristalina e essencial à formação humana está há anos-luz da "obra" do cidadão Roberto Carlos Braga.
A.S - Segunda-Feira 26.05.14
OArte Vital Blogtranscreve aqui o excelente artigo do jornalista Zuenir Ventura em O globo de 24.05
O rei saúda a censura por Zuenir Ventura O Globo
Zuenir Ventura
Na época, o telegrama de Roberto Carlos ao então presidente José Sarney teve repercussão, mas é oportuna agora sua publicação na íntegra pelo blog do jornalista Mário Magalhães. Lá está com todas as letras: “Cumprimento Vossa Excelência por impedir a exibição do filme ‘Je vous salue, Marie’, que não é obra de arte ou expressão cultural que mereça a liberdade de atingir a tradição religiosa de nosso povo e o sentimento cristão da Humanidade. Deus abençoe Vossa Excelência. Roberto Carlos Braga.” O diretor do filme, o franco-suíço Jean-Luc Godard, era ninguém menos do que um dos principais representantes da Nouvelle Vague e autor de uma obra, de fato, polêmica, mas respeitável. Era o começo da Nova República, que vinha substituir a ditadura. Menos de um ano antes, no dia 29 de junho de 1985, um ato público no Teatro Casa Grande, no Rio, reuniu cerca de 700 intelectuais e artistas para ouvir o ministro da Justiça de Sarney, Fernando Lyra, anunciar: “Está extinta a censura no Brasil.” E declarar que o documento que ele recebera, elaborado por Chico Buarque, Antônio Houaiss, Ziraldo, Dias Gomes, entre outros, era a “Lei Áurea da Inteligência Brasileira”. Foi uma festa da cultura, um momento de regozijo como não acontecia havia 21 anos. Portanto, pode-se imaginar a reação, meses depois, à interdição do filme. O novo presidente tinha como álibi o fato de que fora pressionado pela ala mais conservadora da Igreja. Mas, e o rei? Em artigo na “Folha de S.Paulo’’ de 2 de março de 1986, Caetano Veloso falou da “burrice de Roberto Carlos” e acrescentou que o telegrama saudando a censura a “Je vous salue, Marie’’ (em português, “Eu vos saúdo, Maria”, ou “Ave Maria”) “envergonha nossa classe”. Daí a conclamação: “Vamos manter uma atitude de repúdio ao veto e de desprezo aos hipócritas e pusilânimes que o apoiam.” O episódio ajuda a desmontar alguns mitos régios, como o de que o rei só foi favorável à proibição das biografias não autorizadas para preservar sua privacidade. Há 28 anos, ele estava preocupado também com a privacidade da Virgem Maria, mesmo sabendo que o filme de Godard era uma obra de ficção. O outro mito é o da imagem de um artista afastado do poder, trancado numa torre de marfim, sem sujar as mãos com a impureza da política. O novo livro de Paulo César de Araújo (*), autor da biografia proibida, mostra que ele vai aonde lhe convém, ou seja, aonde pode defender a censura: Senado, Câmara, Judiciário e até ao Planalto, como fez recentemente ao ser recebido pela presidente Dilma, que, segundo a imprensa, ficou “visivelmente emocionada” por abraçá-lo. (*) Paulo Cesar de Araújo “O réu e o rei — minha história com Roberto Carlos, em detalhes.”
O advogado, compositor e poeta mineiro Fernando Rocha Brant, na letra de “EncontroS e Despedidas”, em parceria com Milton Nascimento, retrata o que sempre representou uma estação de trem, diariamente, na vida de uma cidadezinha do interior. A música deu título ao Lp gravado por Milton Nascimento, em 1985, pela Barclay/PolyGram.
"Encontros e Despedidas" Milton Nascimento e Fernando Brant
Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar quando quero
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai querer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São dois lados da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar, é a vida
A cantora e compositora carioca Fátima Guedes, na letra de “Lua Brasileira”, exalta a beleza e a magia que o luar transmite na cidade ou na floresta. A música foi gravada por Fátima Guedes no CD Grande Tempo, em 1995, pela Velas.
LUA BRASILEIRA Por Fátima Guedes
Lua brasileira,
surgindo deslumbrante na floresta
toda verde prata
luz de festa, mãe da mata
Lua delicada,
pelos mares do Atlântico passeia
branca lua cheia
noite alta, madrugada
Linda,
por entre os edifícios brilha a lua
uma em cada rua,
lua feiticeira,
surpreendente,
a cada esquina
ela é feminina
Lua brasileira
O arquiteto, cantor, compositor e violeiro baiano Elomar Figueira Mello, na letra “Retirada”, retrata o sonho de tantos que partem do interior do país à procura de oportunidades melhores de vida. A música foi gravada, em 1972, no LP “Das barrancas do Rio Gavião”, produção independente, gravada no estúdio J.S. Gravações Bahia. O disco vinha com apresentação de Vinícius de Morais, na qual o poeta declarava fazer Elomar “uma sábia mistura do romanceiro medieval e do cancioneiro do Nordeste”, definindo-o como “um príncipe da caatinga”, tendo em vista que seu trabalho é fiel às suas raízes, guardando os jeitos, falares e sonoridades do povo do semi-árido e também as influências medievais europeias tão presentes no interior do Nordeste.
Retirada Elomar Figueira de Melo
Vai pela estrada enluarada
Tanta gente a retirar
Levando só necessidade
Saudades do seu lugar
Esse povo muito longe
Sem trabalho, vem prá cá
Vai na estrada enluarada
Tanta gente a retirar
Um ano para a cidade
Sem vontade de chegar
Passa dia, passa tempo
Passa o mundo devagar
Lembrança passa com o vento
Pedindo não retirar
Tudo passa nesse mundo
Só não passa o sofrimento
Na estrada enluarada
Tanta gente a retirar
Sem saber que mais adiante
Um retirante vai ficar
Se eu tivesse algum querer
Nesse mundo de ilusão
Não deixava que a saudade associada com penar
Vivesse pelas estradas do sofrer a mendigar
Vai pela estrada enluarada
Tanta gente a retirar
Levando nos ombros a cruz
Que Jesus deixou ficar
Eu não canto por saber
Nem tanto por reclamar
Tenho minha vida de labuta
Canto o prazer, canto a dor
Que às vezes até labuto
O que Deus do céu não mandou
Vai pela estrada enluarada
Tanta gente a retirar
Passando com traça e vento
Bebendo fel e luar
O cantor, escritor, poeta e compositor carioca Chico Buarque de Hollanda e seu parceiro Milton Nascimento, na letra de “Primeiro da Maio”, usaram o infindo lirismo para inverter os papéis diários do casal de trabalhadores, que, neste dia, através do amor, personificarão a usina e a ferramenta tecendo (o homem de amanhã). A música “Primeiro de Maio” foi gravada por Milton e Chico no Compacto Cio da Terra, em 1977, pela Philips/Phonogram.
Chico & Milton: 1975
"Primeiro de Maio" Milton Nascimento e Chico Buarque
Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é vendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã
O cantor e compositor carioca Agenor de Oliveira (1908-1980), mais conhecido como Cartola, considerado por diversos músicos e críticos como o maior sambista da história da música brasileira, na letra de “Minha”, lembra de um amor não correspondido. O samba foi gravado no LP Cartola, em 1976, pela Discos Marcos Pereira.
"Minha" Cartola
Minha
Quem disse que ela foi minha
Se fosse seria a rainha
Que sempre vinha
Aos sonhos meus
Minha
Ela não foi um só instante
como mentiam as cartomantes
como eram falsas as bolas de cristal
Minha
Repete agora esta cigana
Lembrando fatos envelhecidos
que já não ferem mais os meus ouvidos
O compositor pernambucano Carlos Fernando (1938-2013), na letra de “O Menino e os Carneiros”, em parceria com Eugenio Avelino, o inesquecível e fenomenal compositor Xangai (foto), discorre sobre a sua vida desde a infância. A música foi gravada por Xangai no CD Mutirão da Vida, em 1998, pela Kuarup.
Eugenio Avelino, o grande Xangai
"O Menino e os Carneiros" Xangai e Carlos Fernando
No tempo que eu era menino
Brincava tangendo
(chiqueirando) carneiros
Fim de tarde na rede sonhava
Belo dia seria um vaqueiro
Montaria de pelos castanhos
Enfeitados de prata os arreios
Minha vida hoje é pé no mundo
Sem temer a escuridão
Jogo laço quebro tudo
Meu amigo é meu irmão
Sou a sede de boa palavra
Sou a vida raios de sol
Tenho tudo não tenho nada
Tenho fé no coração
A Discografia do cantor, compositor e violeiro brasileiro, Xangai
• Acontecivento (1976) Epic/CBS LP
• Parceria Malunga (1980) Discos Marcus Pereira LP
• Qué Que Tu Tem Canário (1981) Kuarup LP
• Mutirão da Vida (1984) KLP LP
• Cantoria 1 (1984) MKCD LP, CD
• Cantoria 2 (1985) LP, CD
• Xangai canta (1986) Kuarup LP
• Xangai. Lua Cheia-Lua nova (1990) Kuarup LP
• Dos Labutos (1991) Kuarup LP
• Aguaterra. Ao vivo com Renato Teixeira (1996) Kuarup CD
• Cantoria de Festa (1997) Kuarup CD
• Mutirão da Vida (1998) Kuarup CD
• Um Abraço Pra Ti, Pequenina (1998) CD
• Brasilerança (2002) Kuarup Discos CD
• Nóis é Jeca Mais é Jóia - (Com Juraíldes da Cruz) (2004) Kuarup CD
• Estampas Eucalol (2006) Kuarup CD