quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O gênio introvertido de Keith Jarrett..

Intimo e Pessoal 
Por Antonio Siqueira






Keith Jarrett possui uma maneira de tocar muito pessoal. Não é um interprete conciso: ao contrário, é dado a longas digressões, e muitas de suas peças são improvisos livres, mesclando trechos de caráter quase erudito (particularmente pseudo-barroco ou pseudo-clássico) com outros de sabor minimalista e com passagens decididamente jazzísticas. Ocasionalmente, faz citações de outros temas. O fato de Jarrett propor várias de suas execuções como improvisos livres tem um lado simpático, na medida em que cada peça é única, não só na "interpretação" (o que, de resto, ocorre com todo o jazz) mas na própria concepção da peça, que acaba sendo resultado irrepetível de um lugar, um momento e uma platéia específica. Por outro lado, porém, essa abordagem provoca, em alguns casos, um certo descuido com a forma: as peças resultam prolixas, às vezes repetitivas, estendem-se mais do que seria desejável.


Na música de Jarrett podemos encontrar alguns elementos característicos. Primeiro, ele tem atração pelos ostinatos em andamento moderado, que estabelecem um clima hipnótico. Segundo, principalmente nos trechos lentos, procura deixar soar os acordes, valorizando suas ressonâncias. Terceiro, Jarrett gosta de explorar os desdobramentos de melodias simples, líricas e cantantes. Quarto, nas peças rápidas, as frases entrecortadas emitidas no calor do improviso não costumam ser tocadas pela mão direita na região aguda do teclado, como seria usual, mas sim na região média.

Porém o aspecto mais importante da música jarrettiana talvez não esteja nas características do seu "estilo" de tocar, que acabamos de mencionar, ou de sua técnica pianística, mas sim no seu pensamento musical - no plano cognitivo, por assim dizer. Refiro-me a um aspecto em particular: Jarrett é um mestre do understatement: o que ele deixa de tocar, o que ele apenas sugere assume, talvez, importância tão grande quanto o que ele efetivamente toca. Isso fica especialmente claro quando ele interpreta standards. É como se ele nos levasse a imaginar, dentro de um espaço "dual" ao espaço sonoro no qual se dá o discurso musical propriamente dito, as notas subentendidas, as frases não articuladas, os caminhos não tomados.

As interpretações de Jarrett são temperadas por leves excentricidades cênicas. Ele tem, por exemplo, o costume de murmurar ou cantarolar enquanto toca, a exemplo do que fazia o notável pianista clássico Glenn Gould. Ocasionalmente, também se levanta da banqueta para tocar de pé, etc. No entanto, assim como ocorria com Gould, tais excentricidades ficam em segundo plano, nunca chegando a ofuscar o compromisso total de Jarrett com a música.

Keith Jarrett - Danny Boy

6 comentários:

Celso Lins disse...

Texto rápido, uma aula completa...thank you, antony.

Anônimo disse...

Eloy Castilho disse...

Estou seguindo prazeirosamente o seu blog, porém não estou conseguindo permissão para logar com minha conta Yahoo. Também não quero um Gmail na minha vida, por isso me permita postar como "Anônimo", meu caro!?

Há tmpos não ouço falar do genial keith Jarrett; foi uma grata surpresa. Você soube, como ninguém, descrever como funciona o som dele. Excelente post e o vídeo, nem se fala.

Eloy Castilho

mariza disse...

valeu a pena esperar pelo momento certo pra ler esse artigo. bárbaro, e isso é o mínimo que posso dizer a respeito. o máximo, é claro, não existe quando pensamos em genialidades. esse texto é tão bom, senão melhor, quanto aquele dedicado ao Pink.
o bom crítico, definitivamente, não é aquele cujo conhecimento supera o da maioria das pessoas, o bom crítico, em minha modesta opinião, é aquele que provoca curiosidade e vontade de ir além do que se sabe.
e você, claro, provoca. ;)
beijos de admiração.

Anônimo disse...

Abençoado Jarrett!
Abençoado ouvido, o seu!

Marcos Vinícius

Dayana disse...

Preciso comentar?

rosa pena disse...

Vou ler com muita atenção e vontade.Valeu meu amigo. Que coisa boa. Bjs. rosa

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