sábado, 17 de setembro de 2011

O infinito latifúndio celeste da musica de Elomar Figueira de Melo.

O Cavaleiro Andante
Por Antonio Siqueira

Elomar
    







      









     


     
     
       Músico, cantador, poeta, arquiteto, profeta e criador de bodes no interior do sertão baiano, Elomar Figueira de Melo é das mais incríveis personalidades do coquetel de tendências da musica popular brasileira contemporânea. Assíduo leitor da Bíblia, Evangelhos e histórias e romances da Idade Média, seu universo é descrito aqui. Onde o cristianismo primitivo desenvolve um importante e definitivo papel em sua incrível e já histórica obra poética.

      Sua figura irradia uma aura de magia e carisma, encontrada em raras criaturas na MPB. Aos 74 anos de idade, quase 50 criando verdadeiros clássicos, esse baiano de Vitória da Conquista cresceu ouvindo o que ele chama de “Menestréis do Sertão” - cantadores, repentistas, sanfoneiros e poetas populares. Mais tarde, quando se mudou para salvador para estudar arquitetura, entrou em contato com vários mestres da música, tendo recebido aulas da violonista Edyr Cajueiro. A partir dessas aulas, passou estudar música e a ler partituras, paralelamente ao curso de arquitetura. A sua iniciação musical despertou-lhe o interesse pela musica ibérica e, notadamente, pelas reminiscências da música moura, levando-o a conhecer peças de músicos como Luiz Milan e Robert de Viseé. Incorpora em sua obra, forte influência da música da Idade Média e em plena a Era da Globalização, faz renascer das cinzas, como a fênix, o gênero predominante do período entre os séculos XV e XVI.


O menestrel da caatinga











      Seu trabalho está a serviço da realidade dos sertões, do nordeste brasileiro, de onde se extrai o húmus poético para cantar a seca, a fome, o sol abrasador e pregar o amor, a fraternidade, a concórdia, a paixão e o mistério que envolve essa parte mística esquecida do Brasil e suas figuras de tragédia. “Sempre usei minha canção para pregar o bem e a justiça, e se um dia eu pensar em fazer o contrário, quero que Deus me tire esse dom que me deu.” Diz Elomar, com seu inseparável cigarro de fumo de corda, cujo último trabalho foi o belíssimo “Cantoria 3/Canto e Solo”, registro de gravações de 1986, feitas no Teatro Castro Alves e m Salvador e no Palácio das Artes de Belo Horizonte.




      Mistura de sereno profeta bíblico, cavaleiro andante e trovador a cantar românticas canções de amor desagravando damas e donzelas e vivendo em sombrios castelos ou exaltando o “Rei dos Reis”, Jesus Cristo. Elomar é a autêntica encarnarão do cantador medieval.  Chapéu negro, tipo do legendário cowboy Wyalt Carp, cavanhaque cor de feno, olhos de um azul metálico e sincero, ele é o protótipo da simplicidade e do mistério encarnado. Sua presença é mágica, agreste e energética. Quando dirige a palavra a alguém, Elomar tem por hábito tratar seu interlocutor por “cavaleiro” o que o torna imune a agressões gratuitas e o coloca mental e socialmente de mãos dadas com essa nova postura existencial: democrática e inflada de fluídos de ótimo astral.

      A voz de Elomar é mansa e singela. Ela fala da influência da Idade Média na sua obra. “Li muito os romances de cavalaria, como as obras de Alexandre Dumas, Michel Zevaco e outros. Sempre contestei veementemente os historiadores universais quando chamam a Idade Media de Idade das Trevas; eu acho esse rótulo absurdo. A idade Média foi e será sempre a Idade das Luzes, não obstante a chamada santa inquisição, que denegriu um pouco essa faixa da história. Os avanços tecnológicos e os ônibus espaciais dos EUA são resultados da Idade Média, pois foi de lá que saíram homens como Isaac Newton, Galileu Galilei, Marco Pólo, Cristóvão Colombo e tantos outros cérebros famosos que pertenceram à Idade Média”:'

      Elomar continua falando sobre a importância da Idade Média no seu trabalho e no contexto histórico mundial: “É de lá que saiu tudo, foi na Idade Média, nas escolas monásticas, que se preservou todo o conhecimento antigo. Sobretudo, uma ordem fundada no início do século X, por Bernard de Clairvaux (São Bernardo de Claraval), que fundou a “Ordem dos Cavaleiros do Templo". "Se a Igreja não tivesse massacrado a ordem dos templários, a humanidade estaria hoje num estágio muito superior. Quer no sentido cultural, humanístico, filosófico, religioso, moral, ético... Enfim, se a ordem, tivesse sido preservada das mãos intolerantes da igreja, o mundo estaria vivendo dias bem melhores, mas Deus quis assim”.

       Elomar não segue nenhuma religião formalmente, embora seja teísta e tenha absorvido grandes dosagens de ensinamentos da Igreja de Lutero transmitidas por seus pais que eram protestantes. Suas perspectivas para o futuro da humanidade são sombrias e estóicas. Ele vê o mundo baseando-se na ótica de algumas celebridades como o escrito Aldoux Husley, que ele chama de utopista, e a visão dos profetas bíblicos.

     Huxley, na primeira edição de sua obra, Admirável Mundo Novo, põe uma epígrafe de Berdieff, autor de Uma Nova Idade Media, onde sintetiza a idéia do romance: “A vida marcha para as utopias e pode ser que nesse século XXI tornem-se realidade. Uma sociedade menos perfeita, mais livre”. 

      Ele lembra que Napoleão Bonaparte, a leste de Jerusalém, numa planície chamada Megido, com trinta quilômetros de comprimento por vinte de largura, proferiu essas palavras: “Soldados, belíssima planície para um campo de batalha”. Segundo a visão Napoleônica e Elomariana, a grande batalha do juízo final ocorrerá naquela planície. “Napoleão lia os evangelhos constantemente e conhecia as profecias a fundo. O profeta João, na Ilha de Pátimos, disse que só da China via duzentos milhões de guerreiros marchando para o juízo final”.

      Elomar prossegue dizendo que a Igreja é um tesouro na Terra, a passar vistas grossas na miséria do povo. É critico ferrenho do Vaticano: “É inadmissível o que acontece”. A fé para este homem é condição sine qua non para uma alma na busca da auto-realização. Nas barrancas do Rio Gavião, localidade distante a 102 quilômetros de Vitória da Conquista, Elomar cria bodes e carneiros. “Eu dou nome aos bodes que crio em homenagens as personalidades que admiro como Marco Pólo, Laurence da Arábia, que eu chamo de Lourenço, em tributo ao amor que ele dedicou a causa da Arábia, quando Rei Faiçal ainda era um príncipe”.

      Huxley propõe em seu Admirável Mundo Novo um paraíso restaurado na Terra pelo próprio homem. Todos que pensam tal idéia ser possível, esquecem que, enquanto houver avareza, egoísmo, falta de limites para a ambição, isso não será possível. A ambição é como a guerra; quanto mais ceifa, menos se farta. Elomar completa o papo: “Eu vejo o mundo através da lente dos profetas. Não poderia ser de outra maneira”.



Discografia

 A discografia de Elomar é formidável e de uma qualidade marcante: Até o momento a obra de Elomar, em termos de composição e escrita (partituração) encontra-se no seguinte estágio:



Histórico do Menestrel

11 óperas;

11 antífonas;

4 galopes estradeiros;

1 concerto de violão e orquestra;

1 concerto para piano e orquestra - composto e a ser partiturado;

1 pequeno concerto para sax alto e piano - composto e partiturado;

1 sinfonia - quase toda composta;

12 peças para violão-solo.

As composições para violão na maioria já estão partituradas.

Cancioneiro:

Um caderno de oitenta canções, sendo que a maioria delas já se encontram gravadas e uma pequena parte inédita.

Na Quadrada das Águas Perdidas

Elomar, Elena Rodrigues, Dércio Marques, Xangai e Carlos Pita

Gravado no Seminário de Música da UFBA.

    Fantasia Leiga para um Rio Sêco

Elomar e Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia

Gravado no Auditório do Centro de Convenções da Bahia

    ...Das Barrancas do Rio Gavião

Elomar

    Auto da Catingueira

Elomar, Jacques Morelembaum, Marcelo Bernardes, Andrea Daltro, Sônia Penido, Xangai e Dércio Marques

Gravado na Sala de Visitas da Casa dos Carneiros em Gameleira (Vitória da Conquista, BA)

Elomar em Concerto

Elomar, Jacques Morelembaum, Quarteto Bessler-Reis, Paulo Sérgio Santos, Marcelo Bernardes, Antônio Augusto e Octeto Coral de Muri Costa

Gravado ao Vivo na Sala Cecília Meireles (RJ)

    ConSertão

Elomar, Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Heraldo do Monte

Gravado na Sala Cecília Meireles (RJ)



    Xangai Canta Elomar

Xangai, Elomar, João Omar, Jacques Morelembaum, Eduardo Morelembaum, Eduardo Pereira


    Cantoria 1

Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Xangai

Gravado ao Vivo no Teatro Castro Alves (Salvador, BA)


    Cantoria 2

Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Xangai

Gravado ao Vivo no Teatro Castro Alves (Salvador, BA)

    Cantoria 3 Canto e Solo


Elomar


Gravado ao Vivo no Teatro Castro Alves (Salvador, BA)


Árias Sertânicas


Elomar e João Omar

Gravado no Estúdio Cacalieri — BA


Cartas Catingueiras


Gravado no "Nosso Estúdio" — SP

  
Concerto Sertanez


Elomar, Turíbio Santos, Xangai e João Omar (part. especial)

Gravado ao vivo no Teatro Castro Alves dias 7, 8, 9 e 10 de janeiro de 1.988 em Salvador, BA



DOCUMENTÁRIO







Um link para Elomar: www.elomar.com.br.

* Artigo escrito e editado em Junho de 2007


Copyright by Antonioni ®

8 comentários:

Anônimo disse...

Eis uma obra-prima pouco conhecida de Elomar, o Cavaleiro Andante, como você adorávelmente o chama:

"Campo branco minhas penas que pena secou
Todo o bem qui nóis tinha era a chuva era o amor
Num tem nda não nóis dois vai penano assim
Campo lindo ai qui tempo ruim
Tu sem chuva e a tristeza em mim
Peço a Deus a meu Deus grande Deus de Abrãao
Prá arrancar as pena do meu coração
Dessa terra sêca in ança e aflição
Todo bem é de Deus qui vem
Quem tem bem lôva a Deus seu bem
Quem não tem pede a Deus qui vem
Pela sombra do vale do ri Gavião
Os rebanhos esperam a trovoada chover
Num tem nada não tembém no meu coração
Vô ter relampo e trovão
Minh'alma vai florescer
Quando a amada a esperada trovoada chegá
Iantes da quadra as marrã vão tê
Sei qui inda vô vê marrã parí sem querer
Amanhã no amanhecer
Tardã mais sei qui vô ter
Meu dia inda vai nascer
E esse tempo da vinda tá perto de vin
Sete casca aruêra cantaram prá mim
Tatarena vai rodá vai botá fulô
Marela de u'a veis só
Prá ela de u'a veis só..."

Mauricio Santini

Dayana disse...

Você Escreveu esse artigo-papo em 2007 e eu nunca havia lido?
Que desatenção da amiga distante! Eu acho que conheço a obra de Elomar desde o berço. Impressionou-me o conteúdo e beleza do texto.
Não seria demais dizer que você é um gênio, Antonio.
Que você escreva sempre e por muito tempo!

Day

Silvia Schroeder disse...

Me dá um certo desespero quando eu vejo essas figuras tupiniquins extraordinárias e eu nunca ouvi falar. Download ilegal pra já!
Você é foda my jovem (como diz Aristides).
Abraços

Anônimo disse...

Toda a riqueza da musica regional brasileira no violão do caveleiro Elomar. Me comovi ao ouvir
"Arrumação" depois de tantos anos.

Bruno Alves BA

Sra. dos Sarsais disse...

Quem ainda não foi, vá, ouvir Elomar Lá na Casa dos Carneiros. Só em meio a caatinga, ares da inspiração suprema do Bardo é que se tem audição perfeita da melhor música desse mundo.

Anônimo disse...

Way cool! Some very valid points! I appreciate you writing
this write-up plus the rest of the website is also
very good.

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Ernani Motta disse...

Antonio, meu jovem, que delícia de texto! Os deuses que guardam a obra de Elomar Figueira de Melo, certamente, foram generosos com você e lhe inspiraram, admiravelmente, para escrever com tanta maestria. Excelente! Um forte abraço.

Antonio Siqueira disse...

Obrigado de coração, Ernani. Elomar é inspirador por demais!
vida longa a ti, Mestre Ernani.

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