quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Cinema alternativo



Um Réquiem Grunge e um tropeço perdoado

O eterno clichê do rock'n'roll encontra sua face mais recente em Os Últimos Dias, de Gus Van Sant

Por Antonio Siqueira

Ao se matar com um tiro na cabeça no dia 05 de abril de 1994, Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana e um dos líderes do movimento grunge que assolou o entusiasmo do “espírito adolescente” da década de 1990, deixou de ser um músico para se tornar uma lenda. O eterno clichê do rock’n'roll , de viver muito, experimentar de tudo e morrer jovem, que fez (e faz) diversos artistas testarem os limites físicos e psicológicos de suas personas , encontrou diversos “seguidores” no decorrer da história.

Com mortes trágicas por overdose, suicídio ou alguma outra doença fatal, o “hall da fama” onde Cobain se inscreveu, possui diversas companhias ilustres: Janis Joplin, Jimi Hendrix, Sid Vicious (baixista do Sex Pistols), Ian Curtis (vocalista do Joy Division), Renato Russo – isso para citar apenas os mais conhecidos. O vocalista do Nirvana deixou uma viúva (Courtney Love, vocalista da banda Hole), uma filha recém-nascida e uma legião de fãs ávidos por esmiuçar a conturbada vida de mais um ídolo vencido pelos excessos sexuais e pelas substâncias ilegais – mais outro dos clichês imposto pela tríade sexo, drogas e rock’n'roll.

Ao retratar os dias que antecedem o suicídio de Cobain, o diretor Gus Van Sant, em Os Últimos Dias ( Last Days , 2005), prefere se concentrar na figura humana do músico, criando uma análise desses dias, minutos e segundos que são anteriores a uma decisão tão trágica e punitiva. Van Sant traz o personagem Blake (Michael Pitt, em uma assombrosa semelhança com Kurt Cobain), músico que quer esquecer os problemas da fama e do dinheiro e se isola em uma casa perto de um bosque com alguns amigos, passando seus dias em total letargia, alheio ao mundo exterior.

O silêncio torna-se palpável com Blake perambulando pelo bosque e pelas dependências da casa. Van Sant não quer explicações e nem justificativas, o ritmo lento, quase contemplativo da jornada de seu protagonista serve para que acompanhemos os passos e as crises que levam o músico a tomar a decisão que está por vir. Nada no cotidiano lento e normal pelo qual a casa é assolada leva a entender o que se passa na mente de Blake. Resquícios de sua vida fora desse isolamento são pincelados durante a projeção do filme, mas não serve para compreender a razão dessa personagem estar vivendo em quase um transe, em meio à floresta e no limiar de sua existência.

Mas Van Sant não adere e nem se deixa vencer pelas fáceis artimanhas de mostrar Blake como uma pessoa á beira da loucura. O que Blake procura é apenas um sentido para que sua vida continue, talvez, ao se matar no final do filme, tenha encontrado esse sentido que tanto procurava. Seria esse o motivo que também levou Cobain ao suicídio? Como não podemos saber a real razão desses fatos, apenas fica a certeza de que escolher entre viver e morrer é mais um acontecimento em um dia-a-dia enfadonho e entediante.
Experimentações – Egresso do cinema alternativo americano com Mala Noche (1985) e Drugstore Cowboy (1989), Van Sant lançou uma nova luz sob o cinema independente ao conseguir que dois dos astros mais comentados e promissores dos anos 90, Keanu Reeves e River Phoenix, protagonizassem Garotos de Programa ( My own private Idaho , 1991), alegoria shakespeariana sobre busca e identidade nas ruas de Portland. Com um começo tão singular e metafórico, O cineasta se lança em mais dois projetos independentes, o fracasso lisérgico de Até as Vaqueiras Ficam Tristes (Even cowgirls get the blues, 1993) e o sucesso cínico e sarcástico de Um sonho sem limites (To die for, 1995).

Catapultuado ao “mainstream”, Van Sant filma o roteiro de dois jovens atores (Matt Damon e Ban Affleck) e faz um filme comercial com direito até de Robin Williams como um professor-guru em Gênio Indomável ( Good Will Hunting , 1997), pelo qual consegue nove indicações ao Oscar e o aval de crítica e público. Quando parecia que o cineasta havia consolidado a carreira, podendo alternar projetos mais significativos e pessoais dentro do “esquemão hollywoodiano”, sua primeira investida é na desastrosa refilmagem, quadro-a-quadro, de Psicose (Psycho), um clássico do suspense do mestre Alfred Hithcock. Tal empreitada, desnecessária e enfadonha, deveria ter mostrado a Van Sant que alguma coisa não estava muito certa em suas escolhas.

Mas o seguinte filme veio para consolidar a maré de má sorte que pairava sobre ele. Van Sant faz uma escolha equivocada, novamente, ao “refilmar” ou fazer uma espécie de Gênio Indomável parte 2, com o filme Encontrado Forrester ( Finding Forrester , 2000), obra menor de apelo comercial e sentimentalóide tão atípico em se tratando de Gus Van Sant. Talvez esses tropeços tenham mostrado que ele precisava experimentar novos caminhos e trafegar por escolhas mais ousadas que fizesse aquele cineasta tão promissor do início dos anos 90 vir á tona.

Com produção da HBO, Gerry (2002) inicia uma nova fase na cinematografia de Van Sant. Ao flertar com o experimentalismo das imagens, do tempo e da narrativa, Gerry se torna um pequeno pedaço no quebra-cabeça que Van Sant vem construindo filme após filme. Elefante ( Elephant , 2003) consolidou essas ousadias com a Palma de Ouro no Festival de Cannes , em um exemplar mais acabado das novas obsessões do diretor: tempos mortos, silêncios intermináveis, câmera colada aos atores e o fluxo narrativo acompanhando a situação como se aquilo estivesse acontecendo naquele exato momento.

Com Os Últimos Dias , Van Sant parece terminar essa suposta “trilogia da solidão”, iniciada com Gerry e passando por Elefante , no qual os personagens trafegam sempre a margem de si mesmos, em busca de um sentido para os acontecimentos banais que os cercam: em Gerry a solidão do deserto e da busca por um caminho; em Elefante a solidão de se perceberam invisíveis no mundo que os cerca, precisando usar extremos para chamar a atenção; em Os Últimos Dias o retorno a si mesmo em busca das respostas perdidas por tanta exposição e fama, sentir-se solitário mesmo entre tantas pessoas.

Com esses novos caminhos abertos e propostas resta aguardamos as novas produções de Gus Van Sant que, apesar de alguns tropeços já perdoados e esquecidos, tem se mostrado um dos mais inventivos e corajosos cineastas americanos da nova geração. Se os personagens de Van Sant nunca sabem para onde ir, o diretor parece muito á vontade em lhes mostrar as rotas, mesmo que esses caminhos sejam apenas para alguns poucos interessados nessas experimentações de linguagem e renovações artísticas.

4 comentários:

Anônimo disse...

Van Sant é um enjoadinho, mas esse filme é sensível.

Luana BH

Antonio Siqueira disse...

Esse filme é antigo, Lu. Assisti os dois, aliás, há 3 dias.

mariza disse...

eu curto demais o Van Sant, e seus tropeços, certamente, são perdoados quando enchemos nossos olhos com filmes como Drugstore Cowboy ou Milk, magníficos.

Antonio Siqueira disse...

Conheci Van Sant há uma semana. Ele é sensível.

Postar um comentário

Diga-me algo