terça-feira, 19 de outubro de 2010

"Tropa de Elite 2": Um "todo" perigosamente consensual.

Quem é o inimigo? Quem somos nós?
"Tropa de Elite 2" se firma como o maior longa da história do cinema brasileiro, mesmo deixando de lado questões essenciais ao esclarecimento da platéia.
Por Antonio Siqueira

Após o flashback, conhecemos a nova vida de Nascimento (Wagner Moura, fantástico como nunca) agora separado, longe do filho e com um novo cargo de subsecretário de segurança pública do Rio de Janeiro, acreditando que através dele vai resolver os problemas do tráfico da cidade maravilhosa. Para piorar sua esposa casou com Fraga (Irandhir Santos), militante dos Diretos Humanos e grande crítico do BOPE e principalmente do Capitão Nascimento.

Assim como no primeiro, o filme explica como funcionam todos os esquemas não tão secretos que controlam o Rio de Janeiro, desde o fim dos bandidos nas favelas e com a chegada dos policiais, que enganam o povo com um discurso de que estão protegendo eles em troca de suborno, mostrando a criação das famosas milícias. Não foi muito bem explicada à interação e aos vínculos mais profundos de um processo cruamente político, econômico e social.

Produção impecável! José Padilha está no Roll dos maiores cineastas da atualidade, não só em âmbito nacional, como mundial, sem sombra de dúvidas. Padilha comanda um elenco fabuloso e tira o melhor de todos, inclusive dos figurantes. Destaque para o desempenho de Sandro Rocha. Um sargento corrupto no primeiro longa que vira major miliciano e quase ofusca Moura. É, de longe, a melhor produção brasileira até aqui e merece o publico de cerca de 4,14 milhões de espectadores. Porém, ficou uma lacuna. Uma lacuna em uma obra-prima.

Até agora não entendo a que se refere o tal do sistema ao qual Nascimento faz alusão o tempo todo, e que, de acordo com a tomada final do filme, tem sua resultante (ou seu nascedouro?) em Brasília. Se em “Tropa 1” o mal era o tráfico (junto com o consumidor-burguês-defensor de direitos-humanos-de- bandido), quem é o inimigo agora? Para o povão que ouvir as lições desse Nascimento, são os políticos, a PM e os interesses eleitorais. “Tropa 1” tinha, sim, um discurso. A voz do autor (o ex- Bope, Rodrigo Pimentel, parceiro no livro e no roteiro) através de Padilha, coincidia com a voz do personagem. Como me disse, um dia, uma ótima escritora paulista : “Quem já leu Monteiro Lobato, aprende a decifrar polifonias.”

Em “Tropa 1”, Nascimento é um herói sofredor, produto da sociedade, enquanto estudantes da PUC, a burguesia da Zona Sul, os militantes de direitos humanos e os consumidores de maconha eram mostrados (no que toca à dramaturgia) como um bando de imbecis. Já em “Tropa 2” não fica nenhuma dúvida de que só se alcança a cidadania (um bem em si) através da coragem de relativizar. Até a superlotação dos presídios entra em pauta. O deputado dos direitos humanos fala como ser humano! Contraponto válido à voz do narrador, que, de súbito, deixou de ser onisciente para fazer parte do todo. 

O tráfico de drogas é chutado para escanteio e a culpa dos consumidores não é rediscutida. É como se, para denunciar a aliança entre poder público e banda podre das polícias florescendo em meio às milícias armadas, fosse necessário esquecer aquele inimigo número 1 difuso que o primeiro filme elegia para ser asfixiado em sacos de plástico ao som de música maneira, sob aplausos. 

Em seu discurso na CPI das milícias, Nascimento, em resposta a uma pergunta do filho (“Por que você mata gente, papai?”) responde: “Eu não sei.” É a velha história do mal externo ao indivíduo. Primeiro, são “os traficantes”. Agora, “a PM”, “as milícias”, “os políticos”, “o sistema”. Os políticos são extraterrestres gerados em Brasília, no “Planeta Central”. A PM é uma má corporação nascida de algum lodo virtual, alheio aos maus impulsos humanos, tão sórdidos quanto os traficantes e os milicianos, diferentes da natureza dos que nascem para o bem. Como se Brasília, ou a PM, não fôssemos nós. Quem somos? Com certeza, a culpa está num todo... Um todo perigosamente consensual.

6 comentários:

mariza disse...

ainda bem que você resolveu deixar essa postagem. bárbara análise de um filme que ainda não assisti, mas que pretendo dia desses... hehehe
e como não assisti, vou dar uns pitacos desinteligentes. é uma obra de entretenimento, né não? ainda que a personagem tenha existência real e as denúncias, todos saibam, correspondam à dura realidade. ainda assim é de ficção, de maneira que as alusões do capitão, sem nomear nada, fazem sentido, porque pra bom entendedor... o grande lance, creio, é justamente este, fazer refletir sem concluir nada explicitamente.
Padilha está trilhando um caminho correto na direção. não é daqueles diretores que se sobressaem por sua excepcionalidade, mas certamente contribui para que o cinema nacional deixe de ser analisado como produtor de obras caseiras.
amei.
beijos de terça-feira trabalhosa.

Celso Lins disse...

Não acho que tenha faltado nada, é um filme que beira à perfeição. Estou de pleno acordo com a Mariza. Você é que está muito chato ou assistiu outro filme, rs.

Julio disse...

FALOU TUDO! CALEI, hehehe

Anônimo disse...

A saga continua! Gostei demais sobre o que o autor falou sobre-"aquele mínimo de condições dignas de sobrevivência, para que tenhamos o patamar social que toda grande cidade possui. Educação e saneamento são as chaves desse entendimento."- Eu já morei em comunidade, em favela, em um passado não tão distante. E sei o que é e quem realmente comanda essa desgraça social. No mais, o senhor entendeu como poucos o filme ... ao pé da letra.

Sem mais

Eloy Castilho

Anônimo disse...

Dilacerante! Um tiro certeiro no coração da sociedade carioca e que ricocheteia no âmago do poder geral. Puta filme e a melhor crítica que li sobre esse excelente longa, meu amigo Antonioni!

Claudio Cunha

Denise Almeida da Silva disse...

É um filme fantástico que nos prende à tela. O povo sente uma necessidade muito grande de ver desnuda toda essa podridão da corrupção que é como um pião que roda, roda, roda, mostrando todos os seus lados o tempo inteiro... mas o Poder não consegue acompanhar o giro que é muito intenso... Falta o quê? Desenhar?
E nós, pobres mortais, é que conseguimos entender...

Como disse o Julio: "Falou tudo!"

Beijos, querido!
Denise Almeida

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