quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Com a palavra...

A primeira pedra
   Por Zuenir Ventura
















       Afinal, o nosso presidente telefonou ou não, pedindo a misericórdia de seu amigo Ahmadinejad para a iraniana condenada à morte? Em Cuba, ele não quis tomar partido, mas agora não se trata "apenas" de um dissidente morrendo de fome. A história se reveste da crueldade de um crime bárbaro, só que em nome da lei. Sakined Mohhammadi Ashtiani, de 43 anos e dois filhos, acusada de adultério, foi condenada à lapidação. Ou seja, a morrer por meio de uma das formas mais infames de execução: apedrejada. Enterra-se a vítima até o busto e a multidão se encarrega de matá-la a pedradas. Recomenda-se atirar pedras na cabeça e no rosto no tamanho certo: nem muito grandes, que matem a vítima logo, poupando-lhe padecimento; e nem muito pequenas, que não a machuquem o suficiente para fazê-la sofrer por bastante tempo.

      A repercussão internacional foi grande, com protestos de rua em várias capitais. Um abaixo-assinado com 700 mil nomes, entre os quais Condoleezza Rice, Yoko Ono e Gwyneth Paltrow, está correndo o mundo pela internet. No Brasil, há ainda a campanha "Liga, Lula", pelo Twitter. Num primeiro momento, o nosso presidente negou-se a interceder, sob a incrível alegação de que "as leis dos países precisam ser respeitadas para não virar avacalhação", como se a barbárie legalizada merecesse respeito. Ele mesmo ajudou a avacalhar a nossa ditadura militar, sendo inclusive preso.

     Depois, pressionado pela comunidade internacional, Lula voltou atrás. Num comício na semana passada, ofereceu asilo político a Sakined, não sem antes fazer uma declaração de amor ao algoz dela. "Se vale a minha amizade e o carinho que tenho pelo presidente do Irã e pelo povo iraniano, se essa mulher está causando incômodo, nós a receberemos no Brasil de bom grado." Pelo noticiário de ontem, no entanto, o oferecimento não foi aceito. Uma autoridade do governo dos aiatolás declarou que o nosso presidente "é muito humano e emotivo", mas está mal informado sobre o caso.

      Outro dia, Lula evocou Cristo ao lembrar as torturas sofridas por Dilma durante a ditadura. Como gosta dessas comparações desproporcionais, é possível que recorra agora ao episódio bíblico em que os fariseus ameaçavam apedrejar uma adúltera. Deve achar que, como ele, que não sabe se fica do lado do bem ou do mal, Jesus se encontrava num dilema parecido: se fosse contra a execução, seria acusado de desrespeitar a lei de Moisés. Se fosse a favor, estaria contrariando seus próprios princípios. Foi então que lhe ocorreu — ao Divino Mestre, não ao Nosso Guia — a genial ideia: "Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra." A pecadora saiu ilesa.

Publicado no Globo de hoje.




*Esse post é dedicado ao Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Valinhos, do qual Mariza Lourenço faz parte como conselheira.

2 comentários:

mariza disse...

antes de tudo, gratíssima pela dedicatória carinhosa ao nosso CMDM, um conselho bom de luta, afinado com a causa;
não me causa mais surpresa nenhuma as opiniões do nosso mandatário-mor, haja vista seu comprometimento e apoio a ideologias lastreadas no autoritarismo. mas me causa repulsa a expressão "(...) se essa mulher está causando incômodo, nós a receberemos no Brasil de bom grado." ora, Excelência, a mulher, por suas escolhas, causa incômodo? melhor tivesse permanecido quieto, coisa, aliás, que o senhor sabe fazer muito bem quando lhe convém e àqueles que lhe seguem.
quanto ao episódio propriamente dito e muito bem dito pelo grande Zuenir, a barbárie desse povo, com o devido respeito às tradições e crenças, é repugnante e odiosa. se os novos tempos não foram capazes de reverter esse tipo de prática, o que será capaz? nem Alá...
Deus que nos livre.

beijos.

Magda Camila disse...

Eu bem sei do que os persas são capazes. O mundo islâmico é, politicamente, muito complexo e cruel. O Lula não têm o mínimo prepararo, tampouco humanidade diplomática para tal missão.

magda camila hellal dib

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