quinta-feira, 8 de abril de 2010

Tempos de apocalipse...

Momento para reflexão

Por Antonio Siqueira




No momento em que eu iniciava esse artigo, subia para 145 o numero de mortos devido às fortes chuvas que castigam ininterruptamente o Estado do Rio de Janeiro, segundo boletim divulgado pelo Corpo de Bombeiros. Todos foram vitimados por deslizamentos de terra decorrentes da chuva. Ainda há desaparecidos e esse número pode continuar a aumentar. Com mais esse deslizamento ocorrido há algumas horas no Morro do Bumba, no bairro Fonseca em Niterói, chegando aproximadamentete, a um total de 60 pessoas soterradas. O saldo da tragédia ganha contornos de calamidade. Há 72 horas, chove o maior volume de água registrado aqui no Rio, desde que o mundo novo resolveu evoluir e planejar-se urbanisticamente. Pois é, o mundo está agonizando, endossando aqui a Teoria de Gaia de James E. Lovelock. A Terra está, possivelmente, doente e muito irritada. O cientista britânico, juntamente com a bióloga Lynn Margulis, analisaram pesquisas que comparavam a atmosfera da Terra com a de outros planetas, vindo a propor que é a vida da Terra que cria as condições para a sua própria sobrevivência, e não o contrário, como as teorias tradicionais sugerem, isto é a Terra é um organismo vivo, e como todo organismo vivo reage com uma forte febre a qualquer tipo de infecção grave. Parece que o vírus que provoca essa “infecção” somos nós seres humanos e acabaremos sendo eliminados dessa cadeia biológica.

Os nova-iorquinos chamaram Apocalipse II à tempestade de neve que se abateu nestas últimas semanas sobre o noroeste dos Estados Unidos. O primeiro teria sido registrado durante a semana passada. Não é ainda o fim do mundo, mas não deixa de ser um aviso. A concentração humana nas grandes metrópoles, com a perturbação da natureza, agrava as conseqüências dos desastres. Enquanto a neve desaba no Hemisfério Norte, atingindo a região mais densamente povoada e de ocupação pioneira dos Estados Unidos, no Brasil e em outros países do Sul as grandes chuvas fazem desabar as casas pobres e matam impiedosamente. Há também os terremotos, esses males inseparáveis do destino do planeta, posto que a ele congênitos. Mas, também no caso dos terremotos, desde os registrados na Antiguidade, os danos são equivalentes à densidade da ocupação nas áreas atingidas.

A partir do terremoto de Lisboa, ocorrido no dia 1 de novembro de 1755, discute-se essa relação, e o desastre chegou a alimentar a ideia de que a sede do Império deveria deslocar-se para o Brasil. Não há cifras confiáveis, mas se calcula que entre 30 mil e 90 mil pessoas tenham morrido, em uma população de 270 mil. Como relatam os historiadores, o terremoto causou profundo impacto no pensamento europeu. Todas as crenças, filosóficas e religiosas, sofreram grande abalo e, até hoje, filósofos ainda discutem os seus efeitos na razão humana.



A grande discussão que se faz é em torno do chamado “progresso”. Qualquer restrição ao desenvolvimento da técnica, com seus efeitos sobre a natureza, costuma ser considerada atitude reacionária. O mito do progresso infinito, no entanto, se choca com a consciência dos limites da vida humana e dos recursos do mundo. Parece impossível impor rédeas à busca do conhecimento e à aplicação tecnológica das descobertas. O físico brasileiro José Israel Vargas resume o raciocínio em uma frase linear: é impossível “desinventar”. Uma vez descoberto qualquer processo de intervenção na natureza, imediatamente surge seu proveito industrial, isto é, tecnológico. Se aceitarmos esse postulado, o homem pode estar sendo condenado a sucumbir vitimado pela própria razão, a razão que garantiu sua sobrevivência até o momento.

Há os que recusam a tese de que o homem está envenenando o meio ambiente, e atribuem as mudanças climáticas a fenômenos absolutamente naturais, sobre os quais só podemos ter escassa influência, na previsão de sua ocorrência e nas providências que reduzam os seus efeitos. Outros, no entanto, tentam provar que somos os responsáveis pela degradação do meio ambiente e que estamos nos condenando ao extermínio. É melhor considerar que o homem é um ser precário, e sua sobrevivência é ameaçada pelos fenômenos naturais e pela própria insensatez, como a submissão da técnica à ambição do lucro.

Sófocles, em Antígona, depois de manifestar sua profunda admiração pelos inventores, revela seu pessimismo, ao afirmar que eles ultrapassam toda a expectativa, “o talento e habilidade que conduzem o homem ora à luz, ora a malvados conselhos”. Não obstante o seu culto à inteligência e à razão, que levavam os grandes pensadores gregos à certeza de que a tarefa do homem era a de igualar-se aos deuses, havia os que advertiam contra essa presunção. Há sempre, ao lado do fulgor da inteligência, o perigo de que ela nos conduza aos “malvados conselhos”, identificados por Sófocles. Dentro desse raciocínio, a ciência deve estar submetida à razão política, mas isso só ocorrerá, quando formos capazes de dar razão à política, submetê-la à ética do humanismo. Isso significa planejar a vida para todos, buscando a igualdade e a justiça. Por enquanto morrem, sobretudo, os pobres, mas é provável que, diante da intensidade dos desastres, os grandes comecem a pensar de outra forma.

A neve sobre Nova York – onde começam a faltar alimentos – é um aviso, assim como foi o tsunami da Indonésia e o terremoto de Lisboa. Pouco importa se esses desastres – como o terrível terremoto de Porto Príncipe ou o terremoto que arrasou o estreito território chileno, o primeiro com muito mais vítimas do que o de Lisboa – se devem só às terríveis forças cósmicas, ou também ao desvario do homem. O que importa é usar a razão e a ciência na busca da igualdade e da justiça, de forma a que o homem viva melhor, enquanto o mundo existir.


Imagens: arquivo do autor

12 comentários:

Cris disse...

na verdade o num de mortos já subiu pra 147...até então...! será castigo? eu diria consequência . vai entender! ...às vezes eu tenho ''pena'' daquele povo, às vezes não. =/

Antonio Siqueira disse...

Catástrofes são para se lamentar, sem dúvida. Só que vivi esse universo das obras públicas com bastante intensidade nos dois útimos anos e pude constatar que obras se realizam sim, manutenção destes locais, limpeza de canais, etc. No entanto a população precisa se reeducar (se é que tivemos esta educação) e parar, imediatamente, de atirar lixo nas encostas dos morros, nos canais e nas ruas. Vc joga papel na rua e ele vai para o bueiro, de lá para as galerias e para as saidas externas e é aí que se prepara lentamente uma grande tragédia. A Terra já está no seu limite e coisas simples, como não jogar lixo em qq lugar, já ajudam enormemente. Construir uma favela em cima de um lixão desativado é o cúmulo do sub-desenvolvimento e nossas raízes são fortes, nesse sentido.

Anônimo disse...

E as olimpíadas, como ficam? Vocês queria tanto, não é? Como vão se virar? Os cariocas nao dão mesmo sorte mesmo.

Diego Moura, Brasília - DF

Antonio Siqueira disse...

As Olímpíadas continuarão no mesmo lugar, Diego, isto é: aqui na cidade mais bonita do planeta. Inclusive, temos a abertura e a grande final da Copa do Mundo para cuidar-mos... Que coisa, não? Não era Brasília que queria por que queria as Olimpíadas? Um grande amigo meu, o Luiz Junior, ao ler o seu infeliz comentário (infeliz sim, pois a cidade atravessa um momento muito mais difícil do que vemos na TV), tb comentou aqui à boca miúda, que se as Olimpíadas fossem em Brasília, o símbolo olímpico, (as argolas)seriam confundidos com algemas. Respostas (ou comentários) infames para perguntas (ou, hehehe, comentários) paquidérmicas.

As administrações da Capital e do Estado do Rio de janeiro, são pautadas por equívocos e focos de corrupção, bem sabemos, mas a resposta dada por esses dois governos está sendo rápida e, de certa forma, eficiente. A prioridade é salvar essas pessoas e reconstruir a cidade. Às vezes é preciso chegar ao fundo do poço para que se possa pegar um impulso.

Qdo inventaram Brasília e tiraram do Rio de Janeiro o status de Capital da República, lançaram lá, a pedra fundamental de uma campanha que batizo agora, bem porcamente de: “Vamos fuder o Rio de Janeiro”. Resistimos bravamente nesses 50 anos, mas querem mesmo saber? O Rio de Janeiro, com todos os problemas de uma grande metrópole, não é para qualquer um mesmo! Quando vc precisa construir um lago artificial ou viajar 1000 kilometros para pegar uma praia, é que alguma coisa está muito, muito errada.

mariza disse...

bem, acho que tudo pode se resumir à falta de previsibilidade dos tecnólogos e todos aqueles que, embora conheçam de sobra os resultados de tanta irresponsabilidade, estão mais preocupados em garantir seus empregos, públicos, claro. me desculpe, Antonioni, mas coisa feita nas coxas dá nisso. lamento profundamente que essa cidade maravilhosa sofra tanto por conta dessas intempéries. a natureza dá. a natureza tira. é fato.

e eu fico boba com certos comentários, como o desse anônimo, por exemplo. ô falta de sensibilidade.

que tudo melhore por aí.

Vitor Pavezi disse...

Essa discussão toda, aí em cima, confirma que, quanto maior a relevância do tema, maior o nível do debate. Se, por um lado, há má qualidade de obras em função de desvios(não os geográficos) nas metrópoles, há também a falta de consciência da população. Talvez a parcela maior de(ir)responsabilidade seja do Estado, que além de faltar na estrutura básica do cotidiano (não aquela que recebe olimpíadas) falta com a educação que faz toda diferença;
a saúde, nem se fala - essa já morreu. Emfim, triste isso acontecer com toda essa gente boa e
indefesa, que sofre pela crueldade dessa aristocracia leviana brasileira. Parabéns pelo Blog, Siqueira! Abraço.

Jaqueline disse...

Tantas coisas acontecendo .. Devido tudo há isso que vc Antonio nesse artigo muito bem esclarecido e de uma forma que nos deixa á pensar seriamente a olhar tudo isso com mais atenção e nos voltarmos a cuidar do nosso lar ..que é esse Planeta maravilhoso e que infelizmente estamos deixando a desejar...Essas tragédias que está acontecendo .. eu particularmente fico hiper assustada pq isso tá acontecendo no geral...E se não abrirmos mesmo os nossos olhos e parar de olhar pro nosso umbigo as coisas vão piorar..Lindo artigo pq mais uma vez Antonio vc nos faz tirar a venda que tampa nosso olhos...Para que possamos agir e começar a fazer e tb a cobrar dos outros o que podemos fazer para melhorar nosso Mundo...

Antonio Siqueira disse...

Vitinho querido, obrigado pela participação. O mais novo universitário do pedaço! Meu brother:

O Rio se for citar a infra-estrutura social, jamais deveria sediar nem congresso de medicina, pois já fica perigoso, rs.

Eu não escolheria essa cidade como sede de um evento dessa magnitude, a não ser por pura patriotada. Eu vivo e convivo com seres humanos nesta cidade e sei dos problemas que a tv exibe pela metade para não causar constrangimentos maiores para as pessoas de bem e com algum pudor neste país. Como jogaram essa BOMBA no colo da nossa população, temos mesmo é que encarar a cruzada que vem por aí e, principalmente os fatos: A CIDADE NÃO ESTÁ PREPARADA PARA TANTO!

O Prefeito Eduardo Paes (que é replica do político replicante, Sr Sergio Cabral) resolveu, somente agora, dar inicio no básico dos básicos que, sem duvida, foi o que destruiu a cidade, para depois começar as obras para o evento. Viajaram sim! O Sergio Cabral é pinguço dos bons como o pai. Estamos feitos! O rapaz acima escarneceu de sers humanos que tiveram suas vidas destruídas, não diretamente, mas sabendo bem da dimensão tudo. É uma babaca, bem se vê.

Espero que tudo se recupere bem rápido aqui, pois mares e montanhas com ipês de todas as cores no outono, não garantem nada para quem quer patrocinar algo do outro mundo.

Abraços fraternos

Antonio Siqueira, direitista qdo conveniente e bom aluno da política de tolerância à sacanagens que se desenvolveu no Estado do Rio de Janeiro, mas lê Karl Marx até hj quando está abstinente.

Vitor Pavezi disse...

Caro Antônio,

Só para citar, um pequeno dado, um dos temas da redação na segunda fase do vestibular, na UFES, tratava do tema: "Brasil, Pré-sal, Olimpíadas no Rio, um país do futuro", ressaltando a importância do país sediar esse evento. Quando li tal absurdo, logo me perguntei: "A quem vocês pensam que enganam?". É mole, o tanto de asneiras que tentam nos fazer acreditar... É claro que eu desci a lenha. E passei!

Abraço


(Ouvindo "Mantiqueira range")

Antonio Siqueira disse...

Você faz parte de uma pequeníssima gama de jovens que raciocinam e têm engajamanto neste país.
parabéns, grande Vitor

Anônimo disse...

Um texto com a sua marcas registradas:Personalidade, inteligente e a informação na medida certa.

Drica

Celso disse...

Desde que cheguei de Santiago do Chile,não vi muita diferença de um terremoto para uma enxurrada de chuva como tivemos. Os prejuízos não são os mesmos, mas a impressão de tragédia é a mesma. A diferença é que, aqui na minha, na nossa Rio de Janeiro, a solidariedade e a cooperação foram unanimes e até os índices de assalto e violência cairam para quase zero, enquanto em todo território chileno, ocorriam saques de gangues e uma violência extrêma na hora da distribuição da ajuda humanitária.

esse texto é espetacular, principalmente nos parágrafos que tratam a história de certas catástrofes que assombraram outras civilizações.

abraços

Celso Lins

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